Aventuras
Entrevista com o Legendário Índio Branco de Olhos Azuis, Tatuncanara
Guia turístico que foi denunciado pelo Fantástico da TV Globo como o principal suspeito pelo desaparecimento de uma turista em Barcelos - AM.
Fui designado a implantar as comunicações via satélite na Cidade de Barcelos, AM. Lá, além de inaugurar a telefonia pública com o então Governador do Estado do Amazonas, Amazonino Mendes, tive o imenso prazer de conhecer e entrevistar o Legendário índio branco e de olhos azuis, Tatuncanara.
Parrini inaugurando telefonia via satélite em barcelos ao lado do prefeito da cidade e o então governador Amazonino Mendes.
Tatunca me levou ao seu escritório, uma saleta feita de madeira de dois metros por três onde havia três bancos de bar, uma cadeira, uma pequena mesa e uma rede de dormir. Eu sentei num dos bancos, Tatunca ficou com a cadeira e a rede foi desmontada para não atrapalhar.
Protegido do ambiente das docas por aquelas finas paredes de madeira, relaxei, sentindo-me mais seguro. Já podíamos começar a entrevista.
Lembro-me dela como se tivesse sido hoje. As imagens ainda estão nítidas em minha mente. Eu de chapéu de abas pra proteger do sol, vestido de bermudas e camisa social brancas, passando um calor danado naquela sala, e ele, um índio branco e loiro, descalço, usando uma calça jeans de mangas curtas e tendo o peito nu, a pele branca avermelhada pelo sol. Não tive dúvidas de qual seria a primeira pergunta.
- Tatunca - disse de canto de boca, como um bom repórter investigativo - explique pra gente, como pode você ser considerado índio se é loiro de olhos claros, e ainda tem esse sotaque alemão no linguajar?
- Minha mãe era Alemã - ele começou a explicar com a maior naturalidade. Parecia já ter contado essa estória milhares de vezes. - Ela fazia um trabalho voluntário como enfermeira para a Funai no Amazonas. Ela se dedicava a tribo dos Yanomamis no Alto do Padauari, quase na fronteira com a Venezuela. - Súbito ele ergueu as mãos, a mímica dos dedos afastados tentando acompanhar as palavras. Às vezes, parecia estar enrolando barbantes invisíveis nas mãos. - Houve uma guerra entre as tribos da região e minha mãe acabou sendo levada cativa. O chefe da tribo acabou gostando de minha mãe e desse relacionamento eu nasci. Por minha mãe ter sangue puro, prevaleceu à pele branca e meus olhos azuis. Sou índio por parte de Pai e Alemão por parte de mãe. Aprendi os costumes dos índios por habitar lá e os ensinamentos e o idioma europeu por causa de minha mãe.
Parrini e Tatuncanara
Eu fiz que sim com a cabeça e aproveitei a oportunidade para erguer a sobrancelha, deixar Tatunca conferir o resultado de meus treinos na noite anterior.
- Me diga uma coisa, Tatunca - eu disse, dando prosseguimento à entrevista. - Eu vi você na TV falando para um repórter que tinha se envolvido em assassinatos, que já tinha matado gente na Amazônia. O que existe de verdade nisso?
- Isso me deixou revoltado - disse o índio loiro, encolhendo os braços e olhando por lado. - Porque o repórter não me deu tempo de explicar. Ele perguntou "você já matou pessoas aqui no Amazonas?", e eu respondi a verdade, eu respondi que sim, e ele foi embora sem me deixar concluir. Desligou a câmera, agradeceu a entrevista e partiu correndo. Eu não pude nem explicar. Eu sou uma pessoa de bem, todo mundo aqui sabe que não mataria ninguém por prazer.
- E qual é a explicação que você daria, então? - Eu perguntei.
- Que eu matei gente, mas foram nas guerras de tribos! - Ele finalmente explicou. - Minha tribo sempre guerreava com outras para proteger suas terras e suas famílias, e eu guerreava junto. E nas guerras éramos obrigados a matar, senão morríamos nós.
- Mas o repórter não quis ouvir esta parte da estória - eu argumentei.
Pegando carona no avião da comitiva de Amazonino Mendes, indo de Barcelos a Manaus
- Não - disse Tatunca e abaixou a cabeça, pondo-a entre as mãos. - E eu não sei por quê. Aquela turista desapareceu, foi verdade isso. Eu a levei em meu barco para conhecer as ilhas das Anavilhanas junto a vários outros turistas, passeamos e ancoramos em várias ilhas, todos eles voltaram sãos e salvos comigo, menos ela. Ela sumiu. Além disso eu não sei mais nada.
Aí ele fez uma pausa, reergueu a cabeça e apontou uma parede com a mão, gesticulando com ela enquanto falava.
- Eu fui a última pessoa da região a ter visto a turista desaparecida. Acho que o repórter queria uma matéria e ligou as coisas sozinho, por conta própria. E quando falei pra sua câmera que eu já havia matado gente na Amazônia, ele se aproveitou disso e não quis ouvir o resto. Mas não fui eu o responsável pelo sumiço da turista. Eu não faço idéia do que aconteceu com ela.
Já sem sobrancelhas erguidas, nem micagens, bastante tocado com o drama vivido por aquele homem, eu fiz minha última pergunta.
- E o que a Polícia e a Justiça de Barcelos dizem a respeito dessa estória toda?
Ele ergueu os olhos e olhou diretamente nos meus.
- Depois da investigação? Que eu sou inocente e que devo viver livre, hoje e sempre.
Piloto que acompanhava a comitiva de Amazonino Mendes
Desliguei o gravador, encerrando a entrevista. Apertamos nossas mãos, e Tatuncanara deu-me uma espécie de certidão de nascimento, porém tirada após ele já ser adulto. O documento, reconhecido pelo cartório de Barcelos, demonstrava que Tatunca era brasileiro e era filho de uma senhora alemã com um índio. Fiquei com uma cópia autenticada do documento e com a autorização de Tatuncanara para divulgar esta história a quem quisesse me ouvir.
Gostei daquele homem. Ele me pareceu sincero, e era bastante simples. Creio eu ter ele sido vítima de um tremendo engano, ou uma baita armação por parte de um repórter mal intencionado.
Passei uns dias ainda em Barcelos, concluindo meu trabalho na telefonia via satélite e DDD na cidade. Quando o serviço acabou, voltei pra Manaus onde eu tentei publicar nos jornais a versão de Tatunca sobre o ocorrido em Barcelos. Não obtive sucesso algum, ninguém se interessou na estória.
Eu não ganhava nada com isso, mas ainda assim estava obstinado em ajudar o índio, e no Rio de Janeiro tentei de novo. Mas só encontrei portas a se fecharem na minha cara, ninguém acreditava em mim ou demonstrava um pingo de interesse sequer na estória. Após alguns meses assim eu desisti, mas guardei os documentos de Tatunca comigo.
Além disso,o que posso dizer? O repórter que não deixou Tatunca se explicar pode ter ganhado um cachê extra pela reportagem (manipulada) feira naquele dia, e até rendeu alguma dor de cabeça ao pobre índio. Mas espero que tenha sido bom, realmente, ao repórter essa fama momentânea, porque deve ter sido a única: nunca mais ouvi falar nele. Quem usa de enganação sempre tem esse destino.
Enquanto isso, em Barcelos, Tatuncanara continua levando sua vida tranqüila e feliz, livre e com sua consciência em paz.
Foto com uma india Ianomami. No fundo a antena parabolica instalada para as comunicações DDD de Barcelos AM
(Meu desejo de ajudar Tatuncanara fica expresso aqui, neste livro, que foi a primeira oportunidade que tive de publicar minha entrevista com a versão dele da estória e dos fatos. Se não o fiz antes, foi por ninguém ter me dado uma chance.
Por ser este capítulo a realização do tão sonhado Direito de Defesa do Índio, não troquei seu nome, como fiz com outros personagens. O nome real do índio loiro é Tatuncanara mesmo, ele é uma pessoa real que mora, ou morava, em Barcelos.
Nunca mais vi Tatunca, mas aproveito o livro também para lhe mandar um abraço, caso ele me leia um dia. Foste o primeiro índio loiro que vi na vida e, com certeza, um dos mais cativantes que conheci).
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