Aventuras
Implantando Telefonia Dentro de Uma Reserva Indígena
Certa vez, fui designado pela Embratel para efetuar serviços de telefonia numa grande mineradora que fica instalada no coração da Amazônia, dentro de uma reserva indígena. Para se ter idéia do tamanho e da importância destas instalações, basta dizer que um décimo da produção de estanho do planeta vem de lá. Já o nome da empresa eu prefiro não revelar por motivos de segurança.
Já trabalhando lá, eu levei um choque com uma manchete de primeira página do jornal A Crítica de Manaus que dizia:
Mineradora Fulana de Tal Invade Reserva Indígena!
Era sensacionalismo do jornal, claro, mas fiquei preocupado, temendo o futuro do trabalho na mineradora. Não sabia no que iria resultar a matéria. E não fui só eu a me preocupar: os índios também ficaram com a pulga atrás da orelha.
Tanto foi verdade, que o cacique da tribo Atroari correu a mim tão logo ele soube que eu conseguia, com meu GlobalStar, me comunicar com qualquer ponto do planeta, mesmo estando eu no meio da selva.
Ele me pediu para ligar-lhe com o Presidente da Funai, em Brasília. Eu fiz a ligação, curioso para ver como seria aquela conversa, e assim que passei o telefone ao cacique, vi-o gritar e praguejar muito, xingando bastante e gesticulando com o jornal nas mãos, onde apontava a matéria escrita nele e reclamava sobre ela.
Para se chegar a várias cidades na Amazônia, é preciso usar de barcos ou lanchas.
- Jornal mentiroso! - Acusava ele. - Mineradora não invadiu índio não. Mineradora muito boa com índio, mineradora ajuda índio, mineradora dá casa pra índio...
O discurso do cacique me impressionou deveras e depois da ligação eu decidi visitar sua aldeia. O Cacique concordou em me levar até lá para um passeio, em troca do favor da ligação. Embarcamos num jipe e seguimos por uma estradinha de terra batida a cortar a selva. A aldeia não ficava longe, nós logo chegamos.
 Índia, Professora e guia Turística da Amazônia
Para quem esperava encontrar uma Taba com várias ocas, eu quase caí de costas quando vi a "aldeia": uma vila de casas de alvenaria, cada uma com gerador de energia próprio, movida a diesel, antenas parabólicas, automóveis Gol nas garagens e, em meio a tudo isso, os índios deitados tranqüilamente em suas redes, nas sacadas de suas casas, fumando belos e longos cachimbos da paz.
Melhor que isso só com uma estância de águas, praia artificial e JetSkis.
Era uma bela troca, a mineradora ficava contente em poder explorar cassiterita e outros minérios da reserva enquanto os índios estavam muito mais contentes em receber, sem fazer nada, uma parcela dos lucros. E como eles nunca obteriam tal lucro sozinhos, mesmo que minerassem a reserva inteira com suas próprias mãos, ficaram apavorados com a mais remota possibilidade da mineradora ter que se mudar de região por causa da denúncia feita pelo A Crítica.
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